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quinta-feira, 3 de março de 2016




Serão as mães capazes de ter uma atitude mais calma, logo de manhã, em vez de berrarem para as crianças se levantarem? E berrarem para que se vistam, com os dentes lavados?
 
Francamente, não sei quem é que imaginou isso das mães serem bucólicas quando se zangam e mágicas quando sorriem. Acho, aliás, que se as crianças, quando se aleijam, gritam pela mãe é porque, se não fizessem, elas ficariam inconsoláveis. Afinal, quem é hiperativo lá em casa – quem é?... Que vive entre chamadas de atenção e ataques de nervos, sempre que uma criança não faz do colo da sua mãe um lugar divino, melhor que o paraíso?

E é ou não é verdade que a mãe é, em todas as famílias bondosas, a “esganiçada oficial”? E não é verdade que a mãe tem o vício de se armar em entidade reguladora e quer saber o que foi o almoço, e quer conhecer os amigos de cada criança, e insiste em ir às reuniões da escola e se estafa (quando se devia poupar!) sempre que se trata de ver os cadernos e de “cheirar” os trabalhos de casa?
A mãe inventa problemas onde o pai os não vê?! Mas porque é que ela tem a mania de ver os pacotes de leite vazios que as crianças, por amor à reciclagem, deixam debaixo do colchão? E porque é que, sempre que uma criança protesta, seja pelo que for, ela acaba por não dar muita importância aos seus mais delicados argumentos e acaba (sem razão, é claro!) a dizer: “Tu não me falas assim, que eu sou tua mãe!...”?
Serão, porventura, as mães capazes de jogar à bola ou de ser, levemente, mais zen diante de birras, manhas ou manias? Serão elas ponderadas e compreensivas, a ponto de perceberem que, sempre que a barriga dá horas e atacam as bolachas, as crianças só o fazem (contrafeitas, todavia) porque a fome chama por elas e manda, mais do que devia, nos seus gestos? E não é, verdadeiramente, por embirração que a mãe entende que “a sopa faz bem”, que a “a cenoura faz os olhos bonitos” e que por mais que uma criança engula espinafres não há meio de se tornar tão forte como o Popeye, ao contrário do que ela lhe garante? E, já agora, porque é que quando uma criança não tem fome isso é birra e quando a mãe evita comer é só dieta?
E serão as mães capazes de ter uma atitude mais calma, logo de manhã, em vez de berrarem para as crianças se levantarem? E berrarem por elas não gostarem de cereais? E berrarem para que se vistam, com os dentes lavados? E berrarem porque, para as crianças, o stresse é contra a sua religião? E não serão esquisitas – vá... – porque, depois de todos os berros, ainda têm energia para quererem que a viagem de carro, para a escola, se faça a cantar (quando, por causa dos nervos, a voz duma criança falha até para que ela entoe um hit intemporal como: “por isso sai, sai da minha vida”!)?

Por acaso não será a mãe contra a liberdade de expressão? Não sendo assim, como é que se pode compreender que, mal uma criança ameace que vai viver com o pai, ela logo a arrase com: “Oh meu filho, é só fazeres a mala!”, como se um filho fosse um dois de copas no baralho do seu coração?
Afinal, é ou não verdade que as mães têm uma autoestima revista tão em alta que, sempre que um filho lhes diz: “Não gosto de ti!”, elas não só nunca o levam a sério como dão a entender que esse é o lado para onde dormem melhor (quando, logo a seguir, “arrumam” uma criança com um comentário que já é um clássico de todas as mães: “Não faz mal! Eu gosto à mesma de ti!”)?
E, depois, quem é que inventou que as mães podem ser, às vezes, boazinhas e, logo a seguir, zangar-se com retroativos? E onde param os tribunais de apelação (que as deviam repreender!) quando, no meio duma bulha, a mãe nunca leva a sério um argumento – sábio e ponderado! – como: “Foi ele que começou!”? E onde vão a recurso os seus abusos de poder como aqueles que se dão quando, em caso de dúvida, a mãe dá castigos aos pares e uma palmada a cada um como se fosse uma direção geral dos impostos a presentear crianças  com pagamentos por conta?
E porque é que, mal uma criança sobe a um palco, a mãe não para quieta e diz adeus e manda beijinhos, como se o surto de hiperatividade não sossegasse se uma criança não lhe acenasse? E não é verdade que, de seguida, com uma lágrima ao canto do olho, a mãe acaba a desabafar com a senhora do lado: “Ele não passa sem mim!”?
As mães são esquisitas! E muito mal resolvidas, aliás. Doutro modo, porque é que, sempre que uma criança pede, com zelo, uma explicação, elas acabam – mais porquê menos porquê – rematando: “Porque eu sou... A mãe!”? São argumentos que se tenham? Mas isso dá-lhe, porventura, o direito da sua vontade valer mais que a duma criança? E não é esquisito que, sempre que um filho a considera a melhor mãe do mundo, ela chore e nem assim o poupe, nesse dia, aos trabalhos de casa? E não é esquisito que a mãe e a avó não façam muitas parcerias de sucesso e a mãe aprenda com quem sabe (e passe a dar, por exemplo, a comida na boca, à janela, enquanto se contam passarinhos)? E, finalmente, não é esquisito que a mãe seja contra a autodeterminação duma criança, não deixando que ela brinque o tempo todo, quando todos temos o direito de fazer daquilo com que mais nos ajeitemos bancos de horas para o que der e vier?
Não, não é verdade que haja uma mãe que dê colo. E uma outra, diferente, que repreenda. E outra, ainda, capaz de proteger. Mãe há só uma! A nossa: versátil e multiusos. Esquisita, é bom que se não esqueça! Se bem que tão entranhada no coração duma criança que, apesar de todos os seus defeitos, seja um mistério por que motivo nunca se passe sem ela! Se não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, porque diabo é que Deus não se conteve e criou a mãe? E quem nos salva por ela trazer “mau génio” em vez dum livro de instruções?

por Eduardo Sá

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